sábado, 6 de maio de 2017

Monstros na Borda do Universo - Roberto Schima #Conto #FC



MONSTROS NA BORDA DO UNIVERSO

Roberto Schima



O estagiário de Astronomia caiu para trás, resvalando no assento da cadeira giratória e esborrachando-se no piso do observatório. Teria doído, não estivesse ele na superfície lunar, onde a gravidade era de menos de dois décimos daquela na Terra.

- Eu vi... - balbuciou. - Eu vi...

Nada mais se movia, exceto a cadeira a girar e girar.

Era para ser um trote, somente um trote pregado pelos mais velhos, coisa comum em toda parte, até na Lua. Mas nem todos teriam sido trancados na sala do observatório ao lado do telescópio energético.

Sim, o telescópio energético.

Era a última palavra em telescópio espacial e seria colocado a funcionar na semana que vem, deixando seus concorrentes estrangeiros para trás. Seus preparativos haviam tomado o tempo de dezenas de técnicos, de engenheiros e toda sorte de especialistas. O telescópio energético propriamente, a bem da verdade, estava bem longe dali, nos confins do sistema solar após cobrir anos de viagem. O que o estagiário - Hideki era o seu nome - tinha diante de si era o receptor de sinal vindo algures nas entranhas geladas do espaço.

O jovem oriental não pretendera infringir regras. Fora criado dentro das disciplinas de respeito e de obediência que sempre caracterizaram seu povo. Todavia, seu povo estava longe demais dali - excluindo-se a turma no observatório. Encontrava-se na esfera azulada pendurada no céu, cuja visão não era permitida ao rapaz; não por causa das muitas regras, mas devido a perspectiva: a base inteira estava situada no lado oculto da Lua. Deixaram-no trancado ali na sala após as comemorações. Todos festejaram. Todos beberam saquê e vodka um pouco além da conta. Ele não. Detestava saquê, vodka, tequila, pinga, como de resto, qualquer bebida fermentada. Como "punição", passaria o período convencionado para a "noite" trancado no aposento.

Trancado na penumbra, rodeado de aparelhos. A última palavra em tecnologia.

O que mais poderia fazer para passar o tempo?

Havia séculos perdera a paciência de jogar paciência no computador. Não estava com o espírito para ouvir música, assistir a um filme ou um documentário, enviar mensagens para a Terra - sempre com o enjoado crivo atento da censura sobre sua cabeça.

E o receptor do telescópio energético estava ali.

Sentira-se magoado. A raiva fervera seu sangue.

Tivera medo, naturalmente, entretanto, presenciara os procedimentos teóricos tantas vezes que acabara por decorá-los.

E, na escuridão surreal do observatório, através da tela do aparelho, recebendo os sinais do satélite na borda do sistema solar, Hideki vira mais longe do que qualquer ser humano pudesse ter enxergado ao longo de milhões de anos de existência da espécie.

Nos confins do espaço, detectara bolsões invisíveis de matéria. Tão inacreditavelmente compactos e massivos que produziam estranhas aberrações cromáticas em todo trajeto que os separava nos bilhões de anos-luz até o jovem aprendiz.

O que seriam? Por estarem tão distantes no espaço e, proporcionalmente, no tempo, deveriam margear a própria origem do Universo. Pensou na enormidade de tempo, na existência, no infinito, nos inumeráveis corpos no espaço, no que haveria por descobrir.

A mágoa e a raiva diluíram-se rapidamente.

Foi quando deparou-se com galáxias próximas - vistas com uma nitidez nunca anteriormente presenciada. Distinguiu estrelas indivualmente e detalhes nos braços nebulosos. E, diante daquele centro de luz, em seu amadorismo, concluiu:

- Eu vi...

Os mais velhos ririam se soubesse. E eles nunca poderiam saber que fizera uso não autorizado do aparelho. Afinal, o que entendia Hideki de astrofísica?

- Eu vi...

Havia um "monstro" no interior de cada galáxia. E esse monstro devorava tudo ao seu redor. Percebera os jatos de energia. A luz agonizante de miríade de sóis sendo devorados por aquela boca escancarada de um negror impossível. Eventualmente, concluira, nada mais restaria além da imensidade de seu corpo ameaçador e invisível.

"Nas galáxias espirais como a Via-Láctea, as estrelas não giram simplesmente ao redor de seu centro como sempre quiseram fazer crer os astrônomos, como se fossem os planetas de nosso sistema solar ao redor do Sol", pensara. "Não. O trajeto não era uma elipse como no caso dos planetas, mas uma espiral."

- Espiral!

"Obviamente, rapaz!", responderiam todos, diante das centenas de imagens conhecidas de galáxias de todos os tipos, cores e formatos. Porém, então, por que não divulgavam o óbvio?

Espiral... Semelhante a espiral formada pelos furacões, tornados ou pela água a escoar pelo ralo.

Espiral.

Essa extrapolação, por mais simplória que fosse, aliada a teoria de que todas as galáxias - ou a maioria - possuíam um buraco negro colossal em seu interior levara Hideki a conclusão de que tudo em uma galáxia - estrelas, planetas, poeira interestelar, nebulosas, buracos negros - estaria, na verdade, sendo arrastado, sugado, tragado por esse vórtice até o mergulhar medonho para o interior do buraco negro gigantesco - ou "monstro" - que habitava o centro da Via-Láctea.

Não importava quanto tempo levasse, o fim seria inevitável, fossem humanos, fossem quaisquer outras formas de vida existentes nos bilhões de mundos na galáxia.

Qual seria o final dessa história? Depois de tragar tudo o que houvesse ao seu redor daqui a milhões ou bilhões de anos, sobraria tão somente esse monstro imenso, essa garganta inconcebível, faminta e invisível, como uma fera de tocaia atrás da moite, como uma armadilha mimetizada na escuridão do espaço.

- Eu vi... o fim.

O fim, enquanto espécie, seria inevitável, como o era a vida individual de qualquer um.

Não haveria futuro.

E, sem futuro, qual seria o porquê do presente?

Hideki chegara a sorrir consigo e de si ao relembrar um antiquíssimo filme. Woody Alley, sim, Woody Allen, esse era o nome do diretor-ator desse filme, onde a personagem, ainda criança, entrara em depressão ao saber que o Universo estava se expandindo...

Isso levara o aturdido estagiário a uma outra extrapolação: o universo estava se expandindo desde o Big Bang. As galáxias mais antigas estavam a bilhões de anos-luz. Não seria então possível imaginar que, mais além ainda, nas - digamos assim - "bordas" do Universo, não estariam as galáxias primordiais, ou melhor, aquilo que restara dessas galáxias após consumirem tudo a sua volta: os inacreditáveis monstros invisíveis, capazes de devorar e distorcer todo o espaço ao seu redor? E não poderiam ser esses monstros a propalada e procurada "matéria escura" da qual os cientistas especulavam havia gerações?

A cabeça de Hideki rodopiava.

O fim.

A galáxia.

A matéria escura.

Monstros e monstros.

Monstros na borda do Universo.

Na manhã seguinte - de acordo com a convenção vigente no observatório lunar -, o cientista entrou na sala e observou seu aprendiz em um colchonete num canto entre as paredes. Pigarreou.

- Hideki!

O garoto abriu os olhos com dificuldade. Tivera um sono conturbado. Apoiou-se num dos cotovelos.

- Prof. Hiroshi...

- Não me diga nada. Sei que armaram essa travessura com você. Está bem?

Atrás do cientistas, Hideki avistou rostos sorridentes. Seus algozes.

- Tudo bem, professor.

- Então, apresse-se, precisamos realizar mais testes com os aparelhos antes da inauguração.

- O astro-observatório! - disse alguém às costas do cientista.

Ele virou-se, carrancudo.

- Eu prefiro o termo telescópio energético.

- Sim, senhor, Prof. Hiroshi. Desculpe-me.

E o cientista:

- Então, Hideki. Levante-se! Ânimo, rapaz! Vamos iniciar.

Hideki esboçou um sorriso.

"'Iniciar'? Iniciar o quê? Eu vi tudo. Eu sei de tudo. Não é o início. É o fim."

Do lado de fora, a aridez da paisagem lunar e o céu permanentemente escuro.

Hideki praguejou, desejando observar a Terra e voltar a ver as paisagens de seu longínquo país.

***
(c) 2017 Roberto Schima

Os sonhos nas pontas dos dedos, quando a alma por dentro grita, buscam alívio a todos os medos nos mundos criados pela escrita.

terça-feira, 28 de março de 2017

Ilustrações de Oscar Holguín — Colombia

Ilustrações de OSCAR HOLGUÍN











OSCAR HOLGUÍN RESTREPO, Nacido el 15 de Marzo de 1975 en el Municipio de SALGAR, Departamento de ANTIOQUIA – COLOMBIA.

Ilustrador, Dibujante, Pintor, Diseñador grafico y publicista independiente desde el año 1986.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

3 Antologias Pessoais da Ficção Científica #Sturgeon #Sheckley #Kuttner

3 Antologias Pessoais da Ficção Científica

A ficção científica surgiu popularmente no formato de contos (e contos longos também conhecidos no Brasil como 'noveletes'), publicados em revistas impressas em papel barato chamados pulps.

Os romances com histórias completas são uma concepção tardia do gênero, somente apareceram nos anos 1960, (desconsiderar H.G. Wells e Julio Verne). Também há um formato intermediário chamado de Fix-Up, que eram seleções de contos com ambientações semelhantes, amarrados de forma meio tosca e publicados como se tratasse de um romance.

Portanto, o conto é, digamos assim, a forma nativa e a mais natural de expressão da ficção científica.

Quase todos os autores de ficção científica escreveram contos. E o que é ainda melhor: desses a maioria teve coletâneas dos seus contos selecionados de maneira criteriosa e capazes de mostrarem decididamente o melhor do cada um.


Inicia-se aqui uma série de antologias pessoais que refletem o essencial de cada autor. Comecemos com essas três:


***

1. Theodore Sturgeon - La Fuente Del Unicornio, 1953. 
(Ainda sem tradução em português)


Este é o livro de contos mais famoso de Theodore Sturgeon e também é o mais variado em termos de estilos e argumentos. Seus contos sempre surpreendem pelo clima insólito, sobrenatural e as vezes até alucinante em que ele nos coloca. É uma ficção científica terrestre que corre estreitamente entremeada na realidade, com personagens problemáticos e estigmatizados na sociedade. Suas histórias dão medo, algumas são tristes de chorar e outras de uma maldade irônica e cruel.

Entre os contos eu destacaria La fuente del unicornio, que é o conto de abertura e pertence ao gênero fantástico. Un plato de soledad e El mundo bien perdido, que retratam bem esse clima de que falei acima, outros de terror puro como El osito de felpa del profesor, Una manera de pensar e principalmente Las manos de Bianca, um verdadeiro clássico que em 1947 ganhou um importante prêmio da revista inglesa Argosy, no qual foi finalista Graham Greene.


RELATOS:


La fuente del unicornio (The silken swift, 1953) - El osito de felpa del profesor (The Professor's Teddy-Bear , 1948) - Las manos de Bianca (Bianca's Hands, 1947) - Un plato de soledad (Saucer of Loneliness, 1953) - El mundo bien perdido (The World Well Lost, 1953) - No era sicigia (It wasn't syzygy / The deadly ratio, 1948) - La música (The music, 1953) - Cicatrices (Scars, 1949) - Fluffy (Fluffy, 1947) - Sexo opuesto (The sex opposite, 1952) - ¡Muere, maestro, muere! (Die, Maestro, die!, 1949) - Compañero de celda (Cellmate, 1947) - Una manera de pensar (A way of thinking, 1953).



***


2. Robert Sheckley - Ciudadano Del Espacio, 1955.

(Também sem tradução em português)


Essa é a coletânea 'crème de la crème' de Sheckley. Seu humor sarcástico, seu estilo rápido e suas criaturas dementes e perdedoras jogam com situações quase reais, que mesmo ocorrendo em planetas distantes nos parecem levemente familiares por mostrarem a hipocrisia, a falsidade e o egoísmo humano.

Todos os contos são ótimos, mas para sentir o estilo, aqui um trechinho do conto "Un pasaje a Tranai" (A Ticket to Tranai, 1955) :

"La mayor parte de sus habitantes eran indiferentes al espectáculo de corrupción administrativa, tanto en los altos cargos como en los de menor importancia; no reparaban en el juego, en las guerras del hampa ni en el alcoholismo de los adolescentes. Estaban acostumbrados a que las rutas se hallaran en pésimo estado, los viejos depósitos de agua estallaran, las plantas de energía se vinieran abajo y los edificios decrépitos se derrumbaran. Mientras tanto, los amos construían casas propias cada vez mayores, piscinas más suntuosas y establos más cálidos. La gente estaba habituada. Pero Goodman no."

Qualquer semelhança, não é mera coincidência...

RELATOS: 


La montaña sin nombre (The Mountain Without a Name, 1955), El contador (The Accountant, 1954), Caza difícil (Hunting Problem, 1955), Un ladrón en el tiempo (A Thief in Time, 1954), Un hombre de suerte (Fortunate Person, The Luckiest Man in the World, 1955), No tocar (Hands Off, 1954), Algo a cambio de nada (Something for Nothing, 1954), Un pasaje a Tranai (A Ticket to Tranai, 1955), La batalla (The Battle, 1954), Autorización para delinquir (Skulking Permit, 1954), Ciudadano del espacio (Spy Story, Citizen in Space, 1955) e Preguntas ingenuas (Ask a Foolish Question, 1953). Esta última história é sobre oráculos, e poderia ser resumida hoje assim: Google - acerta a resposta para quem souber fazer a pergunta...




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Henry Kuttner - Lo Mejor de Henry Kuttner II, 1975.

(sem tradução ao português)


Autor bastante versátil e que faleceu cedo demais (1915-1958), está bem representado nestes dois volumes com o seu melhor. Por um daqueles acasos editoriais este segundo volume contém os contos mais inquietantes do autor. Alguns deles foram escritos em parceria com a sua esposa Catherine L. Moore. Todas as suas histórias são marcadamente irônicas e de um humor causticante. Utiliza todos os temas possíveis, terror, fantasia, fantástico, ficção científica soft e hard.

RELATOS:

Hubo una vez un gnomo (A Gnome There Was), La gran noche (The Big Night), Solo pan de jengibre (Nothing But Gingerbread Left), El patrón hierro (The Iron Standard), Guerra fría (Cold War), De lo contrario (Or Else), Cesión de beneficios (Endowment Policy), Problema de alquiler (Housing Problem), Lo que necesita (What You Need), e Absalon (Absalom).





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Espero que o mercado editorial brasileiro ainda acorde para essa literatura mais personalizada da ficção científica, e possa vir a publicar finalmente em português essas obras já clássicas (e de domínio público). 

Herman Schmitz, Londrina-PR.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Ray Bradbury — Cover Art

Ray Bradbury  - The Illustrated Man
Ray Bradbury - Chroniques Martiennes (Enki Bilal)
Ray Bradbury - Fahrenheit 451

Ray Bradbury - The Veldt
Ray Bradbury - O Abismo de Chicago

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

A. E. Van Volt — Capas interessantes

Transgalatic — A. E. Van Volt
A.E. Van Volt - Computerworld
A.E. Van Vogt - La Casa Senza Tempo
A.E. Van Volt - Em Busca do Futuro

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Trasplante obligatorio — La biología en la ciencia ficción



Contra-portada:
"Cuando la ciencia ficción penetra en la biología puede inducirnos a grandes especulaciones en el estudio de la vida. Con esta antología de relatos seleccionados por Isaac Asimov y sus colaboradores Martin H. Greenberg y Charles G. Waugh, tenemos ocasión de conocer la importancia de esta ciencia para los grandes maestros de la ciencia ficción. En este volumen se presentan doce relatos cuyo denominador común es la biología, tratando diferentes aspectos de la evolución, la biología celular, la genética, la fisiología, la reproducción o la ecología. En «Ruido atronador», Ray Bradbury nos sitúa en el año 2500, transportándonos al pasado en un peligroso safari a la Tierra. Poul Anderson, en «Los hijos del mañana», narra una historia de mutaciones genéticas y sus consecuencias después de una guerra atómica. En «Trasplante obligatorio», cuento que da título a esta antología, Robert Silverberg nos remite a una época y un lugar en el que los jóvenes se ven obligados a donar un órgano de su cuerpo. De lo contrario morirán irremediablemente. Los relatos de Fredric Brown, James S. Schmitz, Ursula Le Guin, Thomas N. Scortia, entre otros, completan este volumen."

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Título original: Caught in the organ draft: Biology in Science Fiction

Contenido:

Introducción (Isaac Asimov, Introduction, 1983)
Prohibida la entrada (Fredric Brown, Keep out, 1954)
Cuerpo de investigación (Floyd L. Wallace, Student body, 1953)
Ruido atronador (Ray Bradbury, A sound of thunder, 1952)
Invariable (John R. Pierce, Invariant, 1944)
El exterminador (A. Hyatt Verrill, The exterminator, 1931)
Los hijos del mañana (Poul Anderson (como F. N. Waldrop), Tomorrow's children, 1947)
Mary y Joe (Naomi Mitchison, Mary and Joe, 1970)
Cambio marino (Thomas N. Scortia, Sea change, 1956)
Trasplante obligatorio (Robert Silverberg, Caught in the organ draft, 1972)
Nueve vidas (Ursula K. Le Guin, Nine lives, 1969)
Tierra extraña (Edmond Hamilton, Alien earth, 1949)
El abuelo (James H. Schmitz, Grandpa, 1955)

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Isaac Asimov, Charles G. Waugh, Martin H. Greenberg, 1959.
Traducción: Hernán Sabaté
Diseño portada: Salinas Blanch

Maravilhas da Ficção Científica - Mario da Silva Brito



Maravilhas da Ficção Científica
Introdução de Mario da Silva Brito (trecho)

A ficção científica, de fato, é mais literatura do que ciência. Esta pertence aos compêndios e aos tratados. Os cientistas, no entanto, não a depreciam. Consideram-na, antes, uma hipótese de trabalho dependente da verificação sistemática.

O que a ciência pode representar para o homem na fecundação do seu espírito e na transformação de sua vida, formulando os termos do drama humano, já é matéria para a literatura, para a fábula. O reingresso do homem atua! no mundo da fábula — eis o que a science fiction pratica. Parte o escritor de uma concepção não alheia à ciência e cria, apoiado nela, a trama imaginária, e a narra consoante os seus recursos literários, e estes lhe darão, conforme a qualidade artística da fatura, grandeza ou platitude, realismo ou falsidade. Groff Conklin, experimentado antologista e teórico do gênero, conceitua-o como estando baseado em ideias científicas que não tenham sido provadas impossíveis. Daí não caber estranheza ante a notícia de que, na Universidade de Harvard, o professor Dwight Wayne Batteau mantenha uma cátedra de Ficção Científica aplicada à Engenharia, cuja finalidade é encaminhar os cientistas no aproveitamento das sugestões engendradas pelos escritores. Estes, por sua vez, em muitos casos, são técnicos, homens de laboratório e de pesquisas, cientistas numa palavra, e se valem da ficção para elaborarem, na forma de contos, novelas ou romances, hipóteses que não ousaram ainda formular em termos de rigorosa ciência. Há mesmo críticos literários que definem a ficção científica como a literatura da hipótese. O que importa assinalar, é que os escritores de ficção científica creem, convictamente, nas histórias que inventam e dão força de verdade à supra-realidade que descrevem. Por isso mesmo, os psicanalistas se detêm na análise mais profunda dessas narrativas, sentindo-as como um sonho rico de símbolos. Mas neste, como em qualquer outro gênero literário, o artesão não é dispensado, as regras estéticas não são abandonadas e nem a arte de compor, consoante as exigências estilísticas é de plano secundário. Exatamente porque, antes de mais nada, é preciso respeitar a sua condição de literatura.

A ficção científica, muito embora trate de mundos desconhecidos, de universos vagamente pressentidos, de objetos não identificados, de robôs e monstros, de fenômenos estranhos, de seres extraterrenos ou potências invisíveis, de naves estapafúrdias, de galáxias, de civilizações e culturas de outros planetas, é, em vez de escapista, vincadamente humana e dá a dimensão da perplexidade do homem na hora histórica em que vive. Pertence, como consequência, a um mundo que, pela exacerbação do conhecimento, derrogou as certezas que conquistara com o auxílio da própria ciência. Afinal, o homem moderno e o homem primitivo se igualaram na mesma ignorância — este por nada saber e aquele por saber demais, ficando, assim, atônito diante de cada nova descoberta. Um e outro, cada qual no seu devido tempo, lançam as mesmas indagações sofridas: Que é o homem? A vida? O tempo e o espaço? O futuro? Ambos se definem pela mesma insegurança, por semelhante inquietação ante o ignoto, o mistério. A ficção científica faz às vezes, enfim, de uma Cosmogonia. O Fabuloso de tal forma envolveu o homem, que tudo é mágico, mirabolante, absurdo, inédito e... possível.

A um mundo estável, que vai da geometria euclidiana ao racionalismo de Descartes, da regrada lógica aristotélica ao cosmos de Galileu e ao positivismo de Comte, para assinalar apenas algumas balizas, sucedeu outro, conturbado e revolucionado pela Relatividade, a Cibernética, os Quanta, a Mecânica Ondulatória, a Astrobiologia, a Sociometria, a Genética, a Psicanálise, as transmutações dos conceitos de Espaço e Tempo, a Radioatividade e os Raios Cósmicos, a Biofísica e a Bioquímica, a Eletrônica, a Telecomunicação, as mutações artificiais e tantas outras situações novas e desnorteantes que desmantelaram a solidez de suas interpretações da vida e do meio ambiente.

O homem, antes centro do Universo, acabou adquirindo a ciência — e o que é muito mais: a consciência — de que está instalado num minúsculo ponto perdido num braço de galáxia, entre outros milhares de milhões de grupos estelares, e sabe, por exemplo, que cada novo telescópio prescreve toda a Astronomia sabida até ontem. Ficou sem pontos de referência adaptados às dimensões humanas, observa Erich From, que ainda afirma: “A ciência, os negócios, a política, perderam todos os fundamentos e proporções que façam sentir humanamente. Vivemos em cifras e abstrações; posto que nada é concreto, nada é real. Tudo é possível, de fato e moralmente. A ficção científica não é diferente do fato científico, nem o são os pesadelos e os sonhos dos acontecimentos do ano seguinte.”

A ficção científica funda suas raízes nesse mundo instável e alienado. A espécie humana em perigo — perigo suposto ou real — produz uma literatura premonitória. É o grande documento da criatura em face ao seu destino problemático. Ou a catarse de um sentimento de culpa coletivo. Seja como for, é uma literatura do homem, nascida do seu íntimo profundo, não importa que tantas vezes temerosa e fatalista, desiludida e triste.

Em outros tempos, a literatura preocupou-se com o passado ou o presente das sociedades. Agora está voltada para o futuro, que não consegue vislumbrar nitidamente.

Literatura de fuga, essa da ficção científica? Parece que não. É antes filha do impasse, da crise, da humanidade intranquila e sem paz. Mas, nem por isso, é toda ela feita de dor e, em nenhum momento, de desprezo pela condição humana. Muito pelo contrário, está vinculada ao tempo terrível que as manchetes diariamente denunciam, e, em alguns autores, seus personagens, exilados em outras galáxias, ou em mundos artificiais, apresentam-se nostálgicos da boa e velha Terra que abandonaram por força das circunstâncias, e conspiram contra os governos estelares para retornarem ao solo de antanho, com o fito de novamente colonizá-lo, tirá-lo do seu barbarismo e reorganizá-lo em termos de amor e simplicidade. São personagens ansiosos por retomarem ao humano, por descobrirem uma verdade simples, que nada tenha a ver com máquinas, poder ou glória, mas que devolva aos seres a indispensável dimensão humana.

Uma derradeira indagação: até quando a ficção-científica será apenas ficção-científica?

MARIO DA SILVA BRITO